sábado, 10 de outubro de 2015

Querido diário...





Há um ano depois de muita luta, muita ajuda e muito apoio eu exumei o corpo do meu pai e viajei com os restos mortais dele por 36 horas dentro de uma mala, todo o translado legalmente autorizado pela polícia civil e outros setores responsáveis. Tudo foi muito complexo! Ter mãos me sustentando para não cair, foi um jeito divino de Deus me ajudar. Apesar de todos os desastres e dores que já enfrentei, sempre tive anjos ao meu lado, desses sem asas à quem chamamos de amores e amigos. Muitos me chamaram de louca, que eu devia ter deixado que o cemitério local exumasse e guardasse num nicho na capela de ossos. Mas, isso sim, eu achava mórbido e triste. Dentro daquela mala, eu carreguei mais que ossos. Carreguei um dos maiores sentimentos e respeito que já senti por alguém. Ali eu carreguei algumas promessas, sonhos interrompidos e a certeza de estar fazendo a coisa certa.

E eu fui, fui até o fim. Triste, mórbido, doloroso, exaustivo ou não, eu cumpri um pedido e a minha palavra. E essa nem foi a parte mais difícil. No meio do percurso, eu já até falava e brincava com aquela mala. Acho que, era um jeito de ri para não chorar. Ao chegar ao destino final, é que foi elas... uff, tive de assistir mais duas exumações, a do meu irmão e de minha mãe. Naquela hora, eu achei que não ia aguentar. Eu fui tomada por uma dor tão avassaladora, por um vazio tão imenso, que eu tentei me manter de pé e não consegui. Respirar parecia impossível e não conter aquela cachoeira nos meus olhos foi inevitável. Entre soluços eu clamei por alívio daquela dor. Me senti perdida e sozinha no mundo. Acho que foi a primeira vez que realmente percebi e deixei minha fragilidade aflorar. Essa doída e infinita ausência de pessoas insubstituíveis foi assustadora naquele momento! Tive vontade de deitar naquele túmulo e não voltar mais ao mundo real. Mas, outra vez, anjos enviados de Deus, tocaram-me o ombro e estenderam-me as mãos. Estava feito! Era importante que eu seguisse em paz. E eu pedi muito prá Deus essa paz. Tenho pessoas que dependem de mim, da minha sanidade e da minha presença.

Tirei alguns dias de descanso, revi muito amigos, parentes, tive a oportunidade de rever lugares, questões familiares, de retratar muitas coisas. Fui sem medo seguindo os novos caminhos, libertando tudo o que devia ficar lá no passado. Lavei minha alma no mar. Fui acolhida com amor por abraços sinceros, reais, e de repente, apesar da falta dos meus entes queridos, ia novamente sendo preenchida de vida, de pessoas, de alegrias...

A vida é feita de perdas, de mortes, de despedidas...
Mas a vida também é constante renascimento, presente, chegadas, fazendo-se nova e nos tornando capaz de superar nossos "eus" que ficaram pelo meio do caminho e desejar o futuro.
Eu só tenho gratidão, por Deus ter me dado forças até aqui, voltar para casa e abraçar meus filhos.

Vivi muitas partidas, tristezas e decepções, mas vivo muito mais de alegrias e vitórias. Principalmente da alegria de ter compartido da vida com pessoas tão especiais, como meus irmãos e pais, ainda que por tão pouco tempo. Olho para dentro de mim e sinto vida, pulsando. Meu amor por eles será eterno e a única coisa que ficou na minha mala é a obrigação que sinto que devo a eles, de ser grata por esta vida, não importa o que eu esteja passando, independente do que esteja acontecendo no mundo, é preciso encontrar um jeito de ser paz em meio ao caos. Tenho buscado ser pensamentos de luz na minha própria escuridão. Um ano, e o tempo que é uma ilusão, me guia nesta jornada de aprendizado e auto-conhecimento.


* Não é um texto, só um desabafo, sorry!. É fim de semana, feriadão prolongado e meu psicólogo foi viajar, rs.*

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